A luz lá de fora bate em meus olhos fechados, mau sinal. Primeiro porque se o sol já nasceu então estou atrasada para a escola. Segundo que se a janela está aberta então provavelmente meu pai já notou que não fui a aula, é só uma questão de tempo até....
- Éraze Cordis Aurum! O que significa isso?!
Obrigado pai, por lembrar o quanto odeio meu nome. Sim você não leu errado, meu nome é Éraze, tem algo a ver com terra em grego, mas todos me chamam de Éry, só meu pai que usa meu nome completo quando está irritado comigo. O que sinceramente me deixa irritada também.
- Estou esperando uma resposta minha filha. Por que você está deitada ao invés de estar na escola?
- O que? – Nessas horas se fingir de tonta porque acabou de acordar é a melhor saída.
- Como assim o que? Não está vendo a luz lá fora? Você não deveria estar na escola? Quer repetir o ano? Você vai ficar com uma má reputação na sua escola se continu...
- Que diferença faz a minha reputação pai? No final eu sei que nos mudaremos de novo no final do ano e consequentemente mudarei de escola também! Minha reputação é o que menos me importa no momento!
Sim, esse foi meu ápice, tive que parar de fingir a sonolência para responder a essa indagação. Acho que até meu pai se assustou com minha resposta, porque ele parou de falar por um momento e ficou olhando para o chão.
Não queria ser rude com meu pai, mas a verdade é que isso realmente me estressa. Desde que me dou conta, todo ano moramos em um lugar diferente, isso quando ficamos um ano inteiro sem nos mudar, entendo que Papai trabalha muito e como seu trabalho é de arqueologia e pesquisa, ele está sempre viajando e constantemente precisamos mudar para ele ficar próximo de um centro de pesquisa ou algo do gênero, nunca entendi muito bem o motivo, mas às vezes penso que poderia ter uma vida normal, criando amigos na escola, saindo nas férias de verão e se re-encontrando de novo quando voltassem às aulas.
- Desculpa papai, eu não queria dizer isso...
- Não tem problema meu anjo. Hoje tinha algo importante na escola pelo menos?
-Não muito. Na verdade hoje era apresentação de trabalhos porque é aniversario da escola, mas como já apresentei, então resolvi ficar em casa. Mudando de assunto, quando você chegou de viagem? Agora a pouco, ou ontem à noite quando já estava dormindo?
- Cheguei faz pouco tempo, como pode notar eu nem tirei meu manto de viagem ainda. A única coisa que fiz foi tomar um remédio para enjôo e comer uma fruta. Odeio essas viagens modernas, os aviões do passado eram muito melhores. Imagino o que pensariam se vissem isso há uns cinqüenta anos atrás, é pura loucura. Como isso pode ser...
Esse foi o momento em que meu pai fica falando sobre o passado e eu me desligo mentalmente. Parece que meu pai é um pedaço da historia humana, não sei se é por causa do trabalho ou se é por causa de seus hábitos antiquados, mas ele sempre prefere as coisas velhas e parece que quanto mais antiga e mais estranha melhor. Tipo aquele negocio puxado por cavalos, qual é mesmo o nome? Ah, lembrei, aquilo se chama carroça, aqui não é usado a pelo menos uns cem anos.
Nada contra os gostos estranhos do meu pai, alguns são até divertidos, como espadas e outros apetrechos gregos, mas alguns são realmente cafonas, como as primeiras televisões de Plasma. Difícil imaginar né? O mais legal é que pelo menos ele me ensinou esgrima com espadas de verdade, coisa que não encontrarei em nenhuma escola aqui por perto, tenho certeza, alem de andar a cavalo que é muito legal, porem meio inútil, afinal, são raras as vezes que se encontra grama o suficiente para ver um cavalo.
Enfim, melhor voltar ao mundo real, e ouvir o que meu pai está falando, pode ser algo importante, mesmo que eu duvide muito...
-... ainda acho que o esse negocio de colonizar outros planetas é bobagem. Nós nascemos na Terra por uma razão, não acho que Gaya tenha feito isso sem motivo...
- Pai! – melhor interromper, senão ele não para nunca- O que acha de você ir trocar de roupa e dormir um pouco? Você acabou de chegar de viagem e deve estar cansado. Enquanto isso eu preparo algo para comer, porque mais tarde sairei para dar uma volta no parque, não consigo ficar presa nessa casa.
- Tem razão minha filha, vou deitar um pouco. Meu trabalho anda muito cansativo. – Isso era perceptível só olhando para ele. Barba por fazer, olheiras quase tão grandes quando manchas de Ursos Panda e isso sem contar as manchas de café na camisa. Algo realmente sério deve ter acontecido para meu pai ficar nesse estado, mas por hora, melhor o deixar dormir, depois pergunto o que se passa.
Bem, já que meu pai foi para o quarto dele, resolvi tomar um banho e me trocar para ir para o parque da cidade, talvez o único lugar onde se possa encontrar vegetação na minha cidade. Coloquei minhas casuais roupas, ou seja, calças jeans, tênis de corrida e camiseta leve.
Como sempre corri até o centro da parque, onde tem uma árvore enorme, sentei em suas raízes e como se fosse mágica, senti como se fizesse parte da árvore, pensando melhor talvez fizesse parte do parque inteiro, sentia como se tudo fosse somente um extensão dos meus pensamentos, conseguia sentir uma flor desabrochando, sentia raiva quando notei que pisavam nas flores sem o menor cuidado, literalmente me sentia ligada a esse lugar. Talvez por ser a única lembrança que tenho de minha mãe.
Minha mãe na verdade é um grande mistério para mim. Papai nunca me fala dela, mas como não tenho quase nenhuma semelhança com ele, imagino que seja igual minha mãe. Tenho cabelos e olhos verdes claros, muito parecidos com as folhas das arvores. E um corpo moreno, que lembra a terra onde as raízes são fincadas. Totalmente impossível eu ter herdado isso do meu pai, que tem cabelos castanhos e olhos escuros, então pela minha lógica adolescente, só posso ter herdado isso de minha mãe. Mas mesmo não sabendo nada sobre minha mãe, quando fico assim em contato com a natureza, me sinto como se lembrasse dela e que suas mãos estivessem me fazendo carinho gentilmente.
O tempo passou tão rápido, que quando me dei conta, já estava quase no horário do almoço. Melhor voltar para a casa correndo e preparar a comida para meu pai, que estará morto de fome depois de um bom tempo trabalhando.
Chegando em casa vejo meu pai olhando para o jornal, ao que parece há uma noticia sobre um alinhamento dos planetas que acontecerá em alguns anos, esqueci o detalhe que meu pai também é fissurado em astronomia. Sei lá deve ser algo relacionado de como os planetas eram considerados Deuses antigamente, não sei, a mente de arqueólogo é complicada.
Resolvi preparar logo de uma vez o almoço, antes que desistisse e resolvesse pedir uma pizza. Liguei o fogão e comecei a colocar as coisas na panela. Provavelmente você achará antiquado meu jeito de fazer comida, com todas essas comidas prontas e toda essa tecnologia que faz a comida sozinha, mas talvez por a mania de coisas antigas do meu pai, prefira a comida do jeito antigo, parece que tem um sabor especial diferente de tudo que já comi.
Faltava pouco para o meio dia, a comida estava praticamente pronta, só colocar no prato e servir. Quando acabava de colocar a mesa, uma claridade extremamente forte invade as janelas e cega minhas vistas. Logo em seguida ouço somente o barulho de uma gigante explosão vinda lá de fora. Meio desnorteada me recomponho do susto e vejo meu pai de joelhos do lado de fora, olhando para cima.
-Nãooo!! Não pode ser! Rezei tanto para que esse dia nunca chegasse...- Bradava meu pai ao vento.
- Calma Papai. – Tentei acalmá-lo – deve ter sido só algum balão de gás que explodiu ou algo assim, não é nada de mai...
Foi nesse momento que olhei para cima e me dei conta do que havia acontecido... Simplesmente é impossível descrever com detalhes... No Sol, simplesmente surgiram veios vermelhos, como se a luz vermelha estivesse vazando dele e indo para o espaço...
- Nunca pensei que esse dia iria chegar... – Repetia meu pai em vão.
- Que dia ? – Perguntei a ele
Nesse momento ele olhou fixamente para mim, como se estivesse apreensivo em dizer e depois olhou para o Sol, sem desgrudar os olhos do Sol ele disse:
- O dia em que um Deus iria sangrar.