Pecados

sexta-feira, 9 de julho de 2010.
O que eu sei sobre o mundo? Sou somente uma criação de algum ser humano. Não sou nada alem disso, uma forma de vida em jarro dentro de um laboratório, ou melhor, dentro de um aposento de uma casa usado como laboratório. Mas mesmo assim, por alguma razão, eu conheço mais sobre o mundo do que qualquer habitante nativo dele.
Da prateleira onde estou, tenho como vista uma janela. Dessa janela consigo ver a rua e os seres humanos vivendo... Não... Eles não vivem, eles simplesmente deixam o tempo passar por eles. Eles são frágeis, fracos e com pouco conhecimento. Eles se deixam levar pelos sete pecados com muita facilidade.
Vejo homens serem pegos pelo orgulho de lúcifer, também conhecido pelos mundanos como vaidade, talvez o pior dos sete, pois a pessoa se torna egocêntrica ao extremo e esquece que existem outros semelhantes a sua volta. Imagino que essa sina em questão seja a mais fácil de adquirir, afinal até Narciso, um grande herói grego, o adquiriu.
Sinto a acídia de Belphegor, também chamada de preguiça, por todos os lugares. Uma preguiça que chega a ser repugnante, onde homens para terem menos esforços, escravizam os seus semelhantes. O mais incrível é que esses seres sentem uma preguiça até mesmo para pedir suas preces a seu suposto “Deus” criador de tudo.
Percebo em alguns seres a Ira de Azazel, uma raiva incontrolável que se direciona para uma ou algumas pessoas, com certo sentimento de vingança. Um sentimento que não pode ser saciado até que você o desconte na pessoa alvo, fazendo o mesmo que ela o fez ou na maioria das vezes, fazendo pior.
Noto nesses seres a luxuria de Asmodeus, um forte desejo egoísta por todo tipo de prazer carnal, vejo esses serem se deixarem dominar pelas paixões. Esta sina em si, é de certa forma uma porta para outras, pois a partir dessa, os seres vão a outros desvios piores. Nas palavras de Krishna “É a luxúria, nascida dentre a paixão, que se transforma em ira quando insatisfeita. A luxúria é insaciável, e é um grande demônio. Conheça-a como o inimigo.”.
Esses seres cada vez mais me mostram a ganância de Mammon, também conhecida como avareza, um sentimento negativo que faz o ser querer possuir todo o mundo para si próprio, um sentimento que faz com que o homem abra guarde e zelo como um Deus o que é mais valioso materialmente e descarte o que é mais valioso espiritualmente.
Quando há muito tempo atrás, havia reuniões na casa de meu criador, via em alguns seres a gula de Belzebu, a vontade de sempre ter mais e nunca se sentir satisfeito, não saber viver somente com a quantidade necessária de alimento, chegando a algumas vezes passar mal por isso.
Por ultimo, e também o pior de todos, está nítido em todos os lugares, a inveja de Leviatã. Para cada lugar onde direciono minha visão, noto que sempre há um sentimento de aversão ao que o outro tem e a própria pessoa não tem, gerando assim a vontade de conseguir o que o outro possui e se possível, retirar isso do outro, assim sentindo-se superior. Não vejo pior sina que esta, pois o ser se fecha em seu próprio mundo e não consegue enxergar a realidade a sua volta. Porem imagino que de alguma forma sinto isso na minha própria existência. Tenho inveja desses seres que tem a liberdade, mas não a usam de forma apropriada.
Algum dia quem sabe, a humanidade evolua e note que eu, que estou nesse preso neste jarro, tenho mais liberdade que os humanos que estão presos a seus próprios pecados. Até lá, estarei observando a humanidade da prateleira em de frente para a janela.
Se os humanos ao menos me ouvissem, mas não. Sou simplesmente um serzinho em um jarro, o que eu sei sobre o mundo.

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