Tinta e pincel

quarta-feira, 14 de julho de 2010.
Certa vez, em um lugar qualquer, em um tempo qualquer, havia um atelier qualquer. Nesse atelier um pincel e a tinta em um godê discutiam.
– Por que anda assim se achando tão superior, dona tinta? – perguntava com ar de desprezo o pincel.
– Por que mais andaria? Eu simplesmente posso me considerar superior a você – respondia a tinta com todo o orgulho que tinha.
– Você? Superior? Há! Essa foi realmente muito boa. Você não faz nada a não ser manchar o que a toca.
– Como não faço nada? Eu pinto, as obras mais belas são feitas por mim.
– Dessa vez se superastes. Você pintar? Quem faz esse trabalho sou eu, e não você.
– Você simplesmente me espalha, mas quem dá forma, aos mais belos desenhos, sou eu.
– Grade coisa, se não fosse por meu trabalho, você simplesmente estaria se esparramando, escorrendo e pingando por ai. Se não fosse por mim, para guiar-te, você nunca daria forma a nada, talvez somente a uma poça.
– Você não faz nada mais que seu papel, assim como escravos organizam as coisas de seus donos.
– Por acaso estaria você me comparando com um escravo seu, sua ordinária?
– Não, apesar de que no seu caso não faria muita diferença, pois sem mim, sua utilidade seria somente de peso de papel.
Neste momento o artista havia chegado a seu atelier, então logo a tinta e o pincel se calaram.
O artista começou o seu trabalho, pegou o pincel, passou um pouco de tinta e começou a pintar. O pincel dava todo o seu esforço para mostrar a tinta quem era o melhor, e a tinta simplesmente se deixava levar.
E assim passou-se um tempo cuja significância não é importante, a tinta e o pincel discutindo até o artista chegar e continuar pintando. Até que um dia, a obra estava finalmente completa.
No dia seguinte haveria uma grande feira de obra de artes, com muitas pessoas do alto escalão, tanto da burguesia como da política.
Na noite antes do grande evento, a tinta, já na tela, na forma de uma linda pintura, falava ao pincel:
– Então agora diz que não sou mais importante que você? Eu estou aqui, nessa tela para toda a eternidade, amanha vou para a feira e depois com certeza para um museu de artes. E você? Você será esquecido ai.
E assim como foi dito, foi feito. A tela foi a feira, fez muito sucesso, foi comprada por uma das pessoas de mais prestigio de todo o mundo, e algum tempo depois foi considerada patrimônio nacional e foi para um dos maiores museus de todo aquele país.
Agora você deve estar se perguntando do pincel, bem pelo que tive noticias, ele foi usado mais uma ou duas vezes, depois ficou um pouco gasto e o artista o jogou fora.
Moral da historia: Muitas vezes para algo ser grandioso, as pequenas coisas que o tornaram assim são esquecidas.

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